Por que acessar “informação” já não é suficiente

Por que acessar “informação” já não é suficiente
Photo by Roman Kraft / Unsplash

O que significa, afinal, estar bem informado hoje? Receber muitas mensagens? Ter acesso à internet? Assinar um jornal? Ou ser capaz de, em meio a uma avalanche de dados e conteúdos, distinguir aquilo que é factual, verificável e relevante – isto é, aquilo que ajuda a tomar decisões na própria vida?

A resposta parece cada vez menos óbvia.

Pesquisas recentes nos Estados Unidos mostram um cenário curioso: o consumo direto de notícias está em queda, mas a circulação de informação segue crescendo. Mesmo em regiões consideradas “desertos de notícias”, moradores dizem se sentir bem informados, abastecidos por redes sociais, aplicativos de mensagem e intermediários informais (Medill Local News Initiative, 2026; Pew Research Center, 2026; Pivot Fund, 2026). Ainda assim, basta uma conversa mais atenta para que apareçam lacunas básicas: campanhas de vacinação desconhecidas, serviços públicos ignorados, decisões locais que passam despercebidas.

Nunca foi tão fácil acessar informação – ou o que parece ser informação. E, ainda assim, nunca foi tão difícil acessar a informação que realmente importa. 

Esse descompasso aponta para algo maior do que a crise do jornalismo ou a escassez de notícias. O problema não é apenas quanto conteúdo circula, mas como ele é produzido, organizado e reconhecido pelas pessoas. Em outras palavras, estamos diante de uma desigualdade informacional – ainda pouco nomeada – que afeta a capacidade de indivíduos e coletivos de acessar, validar e usar informação no cotidiano.

Como em outras formas de desigualdade, seus efeitos recaem com mais força sobre as populações mais vulneráveis. Mas há algo novo aqui. Diferentemente de outras desigualdades, essa não pode ser combatida  apenas com políticas que promovam mais distribuição de renda, maior escolaridade ou mais acesso a serviços e tecnologias.

E ela não é apenas mais uma desigualdade – mas aquela que atravessa e intensifica todas as outras. Esse padrão está longe de ser marginal. Mesmo em contextos de alta conectividade, pesquisas mostram que uma parcela significativa da população não consegue identificar informações básicas sobre serviços públicos locais ou verificar a confiabilidade de conteúdos que circulam diariamente. Ao mesmo tempo, cresce a dependência de intermediários informais — como redes sociais, aplicativos de mensagem e lideranças locais — para tomar decisões cotidianas.

No Brasil, durante a pandemia, cerca de 3,3 milhões de pessoas elegíveis ao Auxílio Emergencial não conseguiram acessar o benefício – não por falta de conexão, mas por não conseguirem navegar as informações e os processos disponíveis digitalmente (TCU, 2020) [link: https://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/processamento-do-auxilio-emergencial-tem-inclusao-e-exclusao-indevida-de-pessoas]. Em outro exemplo, na Indonésia, a mesma campanha de vacinação contra sarampo e rubéola atingiu 95% de cobertura em Java e apenas 7% em Aceh. A diferença não era conectividade, mas a ausência de lideranças religiosas locais capazes de traduzir e validar a informação oficial para suas comunidades (Harapan et al., 2024) [link: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12465582/]. Em contextos tão distintos, o mecanismo é o mesmo: a informação circula mas não orienta, pois faltam as condições para torná-la utilizável. 

Nos Estados Unidos, por exemplo, levantamentos do Pew Research Center (https://www.pewresearch.org/short-reads/2025/10/29/how-americans-trust-in-information-from-news-organizations-and-social-media-sites-has-changed-over-time/) indicam uma queda consistente na confiança em diferentes fontes de informação, ao mesmo tempo em que dados do Medill Local News Initiative (https://localnewsinitiative.northwestern.edu/posts/2026/02/10/news-deserts-social-media-local-news-medill-survey/) revelam que moradores de regiões com baixa cobertura jornalística frequentemente se consideram bem informados — apesar de lacunas concretas sobre decisões e serviços locais. Paralelamente, cresce a dependência de intermediários informais para se orientar no cotidiano: redes sociais, aplicativos de mensagem e até sistemas de inteligência artificial já ocupam um papel central na mediação da informação. 

Segundo o Reuters Institute for the Study of Journalism (https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/digital-news-report/2025), apenas 10% das pessoas ainda acessam notícias impressas (uma queda acentuada em relação aos 50% em 2013), proporção hoje semelhante à de quem se informa por podcasts (10%) ou chatbots de IA (9%). Ao mesmo tempo, novas evidências apontam para o crescimento acelerado dessas mediações: como reporta o Nieman Lab (https://www.niemanlab.org/2026/02/chatgpt-is-asked-about-local-news-1-million-times-per-week-openai-says/), ferramentas de IA já são consultadas milhões de vezes por semana para responder perguntas sobre notícias locais, muitas vezes sem transparência sobre fontes ou critérios editoriais. Esses dados ajudam a evidenciar que a desigualdade informacional não se limita ao acesso: ela se manifesta, sobretudo, na capacidade concreta de transformar informação em ação.

O exemplo das plataformas é o mais evidente: elas passaram a ser, para muitos, a primeira e às vezes a única infraestrutura da informação, com algoritmos que decidem, sem prestar contas e sem indicar as origens e fontes dela, o que deve ou não ganhar atenção e alcance.

Mas esse cenário também expõe um problema mais profundo.

Talvez o erro esteja no próprio diagnóstico. Temos tratado a informação como se ela já estivesse pronta (disponível nas plataformas, no jornalismo, nos dados públicos) e como se bastasse produzir mais ou distribuí-la melhor. Mas informação não é um recurso dado. Ela precisa ser verificada, traduzida e situada no contexto das pessoas. Quando essa infraestrutura – em grande parte invisível – falha, a informação até circula, mas não orienta, não ajuda a decidir e não sustenta ação coletiva. É esse deslocamento que propomos aqui: olhar para além da circulação e trazer à superfície as condições que tornam a informação possível como um bem público que pode até ajudar, de fato, a reduzir desigualdades.

1. Uma desigualdade pouco nomeada

Grande parte dos debates contemporâneos sobre desigualdade se concentra em dimensões socioeconômicas, políticas e tecnológicas (a exclusão digital). Essas dimensões são fundamentais. Mas há uma outra camada que raramente aparece com a mesma clareza: a distribuição desigual da capacidade de transformar informação em algo útil para agir no mundo.

Essa desigualdade não se resume ao acesso à internet ou à disponibilidade de dispositivos. Ela envolve algo mais profundo: a existência — ou ausência — de condições para que a informação disponível seja reconhecida como útil, confiável e acionável no cotidiano (InfoCensus, s.d.).

Em outras palavras, trata-se menos de quem recebe informação e mais de quem consegue usá-la. Esse deslocamento não é pontual nem restrito a contextos específicos. Ele aparece de forma recorrente em diferentes países, territórios e níveis de renda, indicando que se trata de uma transformação estrutural na forma como a informação é produzida, reconhecida e utilizada. Um estudo publicado (https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/digital-news-report/2025) em 2025 pela Reuters reconhece que esse padrão é ainda mais preocupante na população jovem, que proporcionalmente tem uma maior propensão do que outros grupos a consultar as redes sociais e a utilizar chatbots de IA para se informar. 

Essa capacidade não se distribui de forma homogênea. Em muitos territórios, a informação até circula em volume, mas chega fragmentada, tardia ou desconectada das necessidades concretas da vida local. Em outros, a dificuldade está na confiança: informações existem, mas não são ou não podem reconhecidas como legítimas ou utilizáveis. Em outros ainda, o problema é de mediação – falta quem traduza e organize aquilo que circula. E sobram informações que não são informações.

Essas variações mostram que a desigualdade informacional não depende exclusivamente de marcadores como renda, raça, gênero ou território – embora todos eles influenciem suas formas de manifestação. Ela se constrói na intersecção entre condições materiais, redes sociais e dinâmicas de reconhecimento. Esse padrão tem sido descrito por acadêmicos como uma “terceira divisão digital”, ou seja, a capacidade de transformar acesso à informação em ganhos concretos – sociais, econômicos ou políticos (https://www.oecd.org/en/publications/how-s-life-in-the-digital-age_9789264311800-en/full-report.html). Em países da OECD, entre 5% e 10% das pessoas com acesso à internet deixaram de submeter formulários a órgãos públicos por falta de habilidade – não de conexão –, com o percentual sistematicamente mais alto entre os menos escolarizados e caindo para menos de 1% onde há mediação institucional robusta. 

Na prática, isso significa que duas pessoas podem receber a mesma informação, mas apenas uma consegue usá-la para tomar decisões ou acessar um direito. Isso aparece, por exemplo, quando alguém recebe informações sobre um benefício público, mas não consegue entender como solicitá-lo; quando uma pessoa lê notícias sobre saúde, mas não consegue avaliar quais orientações são confiáveis; ou quando um trabalhador tem acesso a informações sobre uma vaga, mas não consegue navegar o processo digital para se candidatar. 

Mesmo em contextos altamente conectados, essa desigualdade persiste. Porque envolve repertórios, relações de confiança e, sobretudo, a presença – ou ausência – de estruturas que tornem a informação inteligível e utilizável.

Por isso, a desigualdade informacional não apenas acompanha outras desigualdades – ela as aprofunda e amplifica, em um ambiente carregado de dados, mas escasso de regras compartilhadas.

Ao mesmo tempo, plataformas digitais passaram a operar como principal catalisador dessa desigualdade. E são elas que, por meio de sistemas algorítmicos, definem o que ganha visibilidade, o que viraliza e o que permanece invisível. Esses fluxos são temporários, personalizados e, em grande medida, inauditáveis, o que dificulta práticas consolidadas de validação social e torna mais difícil reconhecer a origem e os critérios de produção da informação (NewsFix, 2025).

2. Os protocolos invisíveis

Por trás dessa desigualdade há uma mudança drástica na cadeia que produzia, organizava e distribuía informação. Durante décadas, essa cadeia foi sustentada por protocolos de dois tipos: acordos formais (contratos, regulações, responsabilidades legais sobre quem produz e distribui conteúdo) e acordos tácitos (normas partilhadas dentro de redações, convenções editoriais, expectativas recíprocas entre veículos e audiências. Protocolos que, de uma forma ou de outra, eram acessíveis: era possível identificar quem havia produzido uma informação, por quais critérios ela havia sido selecionada, e a quem recorrer quando algo estava errado.

Esse sistema começou a se desorganizar nos últimos 20 anos. As plataformas passaram a controlar a distribuição, o conteúdo passou a circular fora de seu contexto original e as pessoas passaram a acessar informação sem necessariamente identificar quem a produziu. Mais recentemente, a inteligência artificial levou esse processo um passo além: conteúdos podem ser produzidos, recombinados e apresentados sem vínculo claro com sua origem. A ideia de autoria – e com ela, de responsabilidade – também tornou-se difusa.

Esse processo teve duas consequências distintas, mas interligadas. De um lado, o controle sobre a circulação da informação migrou para plataformas cuja lógica central é a captura de atenção – e para as quais informar não é uma obrigação, mas um subproduto. De outro, os protocolos tornaram-se invisíveis: os algoritmos que hoje organizam o que circula operam sem autoria declarada e sem mecanismos efetivos de contestação.

Essas mudanças não eliminaram a informação factual. Mas alteraram profundamente as condições para reconhecê-la. 

Esse deslocamento aparece também no debate internacional sobre integridade da informação. Para as Nações Unidas, não se trata apenas de combater conteúdos falsos, mas de garantir condições para que a informação seja precisa, contextualizada e reconhecível como confiável — o que exige estruturas que permitam verificar, atribuir e responsabilizar aquilo que circula (United Nations, s.d.). Isto é, de protocolos que sustentem a informação como um bem público.

Isso ajuda a explicar um aspecto frequentemente negligenciado no debate sobre desinformação. O problema nem sempre é a ausência de informação factual. Muitas vezes, é a dificuldade crescente de distinguir, dentro de um fluxo contínuo, aquilo que foi produzido sob protocolos reconhecíveis, íntegros.

Como aponta a autora da NewsFix, o jornalismo sempre cumpriu três funções centrais: registrar fatos (record creation), gerar responsabilização (accountability) e responder a necessidades informacionais (meeting information needs). Quando os protocolos que sustentam essas funções se tornam menos visíveis, não é só o conteúdo que se fragiliza — é a nossa capacidade de reconhecer o que é confiável.

Em contextos de crise, essa transformação se torna ainda mais aguda.

A pesquisa conduzida por uma das autoras deste texto, Nina Weingrill, sobre as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul mostra que, diante da desorganização dos canais formais, novos arranjos passam a sustentar a circulação de informação factual (Weingrill, 2026). Jornalistas, pesquisadores e moradores colaboraram para corrigir mapas de risco, verificar dados e redistribuir informações em tempo real — muitas vezes por meio de redes locais e aplicativos como WhatsApp.

Na prática, o que se observa é um ciclo contínuo de produção, verificação, tradução e circulação.

Esses arranjos combinam zeladoria distribuída, arquiteturas cívicas temporárias e formas de gestão coletiva da informação como recurso comum. Eles não eliminam a necessidade de protocolos – mas mostram que esses protocolos já estão sendo reconstruídos, ainda que de forma fragmentada e sem reconhecimento institucional.

3. O nível local como campo de experimentação

É no nível local que os efeitos da desigualdade informacional se tornam mais tangíveis – e, talvez, mais urgentes.

Quando a cobertura jornalística diminui ou desaparece, comunidades não deixam de receber informação. Mas passam a depender mais intensamente de circuitos informais: redes sociais, grupos de mensagem, lideranças locais ou intermediários ocasionais. Esses circuitos podem cumprir funções importantes, mas raramente operam com protocolos claros.

Ao mesmo tempo, é nesses mesmos contextos que começam a emergir formas de reorganizar a informação.

Durante as enchentes no Rio Grande do Sul, por exemplo, um grupo de WhatsApp reuniu jornalistas, pesquisadores e moradores para verificar, em tempo real, mapas de risco divulgados por órgãos oficiais (Weingrill, 2026). Informações imprecisas eram corrigidas, orientações ajustadas e redistribuídas conforme a situação evoluía.

Em Chicago e Mineápolis, nos EUA, diante de operações do ICE, a polícia de imigração, organizações de mídia cívica e atores comunitários estruturaram redes de resposta rápida (Columbia Journalism Review) para lidar com a circulação intensa de informações e desinformações sobre o território. Mais do que publicar, passaram a treinar pessoas para identificar fontes confiáveis, verificar conteúdos e produzir registros com contexto suficiente para serem reutilizados por outros canais.

O que essas experiências têm em comum não é o formato, mas a função. Elas sustentam, de forma distribuída, as condições para que a informação possa ser produzida, verificada, reconhecida e usada.Essas práticas tão pouco são aleatórias. Elas se organizam em torno de três funções complementares: a produção e proteção da informação, a definição de regras e critérios sobre o que circula e as estruturas que permitem que a informação circule entre diferentes atores.

Em conjunto, essas dimensões operam como uma infraestrutura: um sistema que conecta atores, processos comuns e tecnologias para transformar informação em algo utilizável.

Em muitos desses casos, a informação mais útil não vem das instituições formais, mas dessas redes locais – que já existiam, mas operavam de forma invisível e sem sustentação.

Nesses contextos, o jornalismo não desaparece, mas muda de lugar. Deixa de ser apenas produtor de conteúdo e passa a atuar como parte de um sistema mais amplo de coordenação da informação: conectando atores, organizando fluxos e ampliando a capacidade coletiva de verificar e usar o que circula. Esses atores locais vêm sendo descritos como “information stewards” – ou comissários da informação – responsáveis por organizar fluxos, traduzir conteúdos, conectar fontes e tornar a informação utilizável (Press Forward; JSK Fellows).

4. Protocolos para um novo paradigma informacional

Durante a última década, a crise do jornalismo foi tratada sobretudo como um problema de modelo econômico, o que orientou diversas tentativas de “salvá-lo”. Mas o próprio diagnóstico permanece fragmentado: não há consenso sobre qual problema resolver – fala-se em desertos de notícias, audiência, sustentabilidade ou inovação (Media Impact Funders, 2025). Como destaca Mira Milosevic, diretora executiva do Global Forum for Media Development e economista, trata-se menos de “reparar” e mais de reconstruir as bases do sistema informacional, em vez de tentar corrigir seus sintomas (GFMD, 2025).

Nesse processo de invisibilização das infraestruturas, a pergunta deixa de ser apenas como financiar o jornalismo – e passa a ser quais protocolos podem sustentar o produção, circulação e reconhecimento da informação em ambientes digitais e algorítmicos.

Em contextos eleitorais, não basta haver cobertura ou conteúdo factual: o que está em jogo é a capacidade de identificar a origem das informações, distinguir conteúdos verificados de peças manipuladas e entender como certos temas ganham visibilidade. De forma semelhante, quando sistemas de inteligência artificial passam a responder sobre notícias locais, a questão não é apenas a qualidade da resposta, mas a possibilidade de rastrear fontes, compreender critérios de seleção e contestar erros. Em ambos os casos, o desafio não é produzir mais informação, mas garantir mecanismos – visíveis, compartilhados e acionáveis – que permitam reconhecer, verificar e responsabilizar o que circula.

Isso implica tratar a informação factual não apenas como produto, mas como parte da infraestrutura. Esse sistema pode ser entendido a partir de quatro dimensões interdependentes:

– materiais, como plataformas, canais e redes de distribuição;

– institucionais, como regras, governança e responsabilidades sobre o que circula;

– práticas, como processos de verificação, tradução e mediação;

– sociais, como relações de confiança, repertórios e formas de reconhecimento.

É a articulação entre essas dimensões que permite que a informação deixe de ser apenas disponível e se torne, de fato, utilizável. 

Como defende a UNESCO desde 2021 – e todos os seus países signatários –, a informação é um bem público essencial (UNESCO, 2021) ao funcionamento democrático das sociedades.

5. A pergunta central

Colocar essa infraestrutura em prática exige ampliar quem está à mesa. Não é uma agenda exclusiva do jornalismo. Envolve gestores públicos, financiadores e filantropias, organizações da sociedade civil e lideranças comunitárias, pesquisadores e universidades, além de empresas de tecnologia – todos atores que já influenciam como a informação é produzida, verificada e distribuída. Colocá-los em diálogo é reconhecer que essa é uma responsabilidade compartilhada – e que sustentá-la exige desenho institucional, financiamento contínuo e mecanismos de cooperação ainda frágeis ou inexistentes.

No limite, a questão não é apenas informacional. É democrática.

Trata-se da capacidade de uma sociedade reconhecer coletivamente aquilo que é factual, atribuir responsabilidades e agir a partir disso. Trata-se, portanto, de sustentar as condições mínimas para a construção de uma realidade compartilhada.

A desigualdade informacional, levada ao extremo, não produz apenas desinformação — produz fragmentação. Diferentes grupos passam a operar com referências incompatíveis sobre o que está acontecendo, quais são os problemas e o que deve ser feito. Sem um mínimo de acordo sobre a realidade, torna-se inviável construir objetivos comuns, formular políticas públicas legítimas ou sustentar qualquer forma de ação coletiva.

É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas sobre acesso, mídia ou tecnologia. E passa a ser sobre a própria possibilidade de vida democrática.

Se a informação é uma infraestrutura — como argumentamos — então sua ausência ou fragilidade não apenas limita decisões individuais, mas corrói as bases que permitem que sociedades deliberem, discordem e decidam em comum. Não se trata de eliminar conflitos ou diferenças, mas de garantir que eles possam existir sobre um terreno minimamente compartilhado.

Reconstruir essa infraestrutura é, portanto, mais do que uma agenda para o jornalismo ou para a comunicação. É uma agenda de reconstrução das condições de realidade comum.